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A Gazeta do Repórter

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Alcântara-Terra - Recordar o rapto do Zé., que eu Assisti!

14.12.19 | Rogério Rosa

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           Foi há muito tempo que aconteceu ter assistido a um rapto. Estava no ano de 1979. Tinha saido de vez do colégio interno, onde estive durante 6 anos. Aliás, os meus melhores anos de vida, onde estive em segurança com muitos outros colegas, vigilantes e professoras.

          Já fora do colégio, entregue ao meu pai. Eram frequentes a ida dele com a minha madrasta e as minhas irmãs, para casa de um casal amigo em Santa Apolónia. Casal esse, constituído pelo Sr. Afonso, a esposa D. Fernanda e os filhos, Helena e Paulo. Estes, iam sempre connosco para a praia de Paço de Arcos e até para a terra deles, Amioso Fundeiro, distrito de Coimbra.

Uma localidade de montanhas e vales, onde eu, o meu pai, o Afonso, o Paulo, o Lázaro e o pai deste. Eram as caminhadas de manha, que nos mantinhamos unidos. Uma tarde passada no poço da boneca, uma espécie de lago fundo, onde todos mergulhavam, num intenso calor. Os pais de Lázaro e a irmã Fátima, colaboravam connosco. Aliás, na noite da nossa chegada, o pai do Lázaro, chegou a levar-me ao colo para a casa deles. Havia entre a casa do Afonso e a casa do pai do Lázaro, uma escada e uma pequena ladeira. O meu pai, ia dizendo, que me colocasse no chão, porque eu era pesadote, mas o pai do Lázaro, não ligou muito e só me meteu no chão, quando entrámos em casa dele. Não havia quartos nessa altura, o meu pai e madrasta dormiram num, eu com o Lázaro, e a Fátima no quarto dela.

           Em Lisboa, iamos fazendo a nossa vida. O meu pai e o Afonso, eram colegas na Carris, na Tipografia. Os filhos dele, eram estudantes, assim como eu. Num desses fins-de-semana, conhecemos outro casal. Parente do casal Afonso. O Sr. António, os filhos António e o José e a mulher, Vitória. Moravam no Alto de Santo Amaro.

          Nesse ano de 79/80, nos Jardins de Belém, ia acontecer um Luna Parque. Onde iria haver umas construções de restaurantes, uma espécie de Feira Popular. O meu pai, o Afonso e o António, em colaboração com os filhos, iam ajundante a construir um restaurante. Eu, tal como, as minhas irmãs, a Helena, a minha madrasta e a D. Fernanda, lá estavamos também á noite, a ver e a apoiar. Era um movimento em redor de outras pessoas a fazerem o mesmo. Nunca se tinha visto nada assim. Muita gente para construirem ali restaurantes, quase de fronte dos Jerónimos.

Algum tempo depois, a Câmara de Lisboa, deve ter embargado e tudo foi pelo"cano".

          Eu, era um miudo reservado, não me dava muito com os filhos do Afonso e muito menos do sr António. Um dia, o Paulo e o seu fiel amigo Camarinhas, queriam armar uma cilada contra mim, mas como dei por isso, acabou mal. A coisa, era para ser na casa dos vizinhos do Afonso, a Ausenda e do Silvério, estes tinham uma única filha, a Laidinha, hoje Adelaide, Médica. O resto que se iria passar, não vou aqui pronúnciar-me.

Uns fins-de-semana mais á frente, estava em casa do Afonso, onde estavam os filhos, mais o Zé, o irmão, o meu pai,madrasta, D. Fernanda,  D. Vitória. De tarde, o Zé ia a casa buscar qualquer coisa. A minha madrasta, disse-me, porque é que eu não aproveitava e ia com ele. Fui com ele!

Apanhámos o autocarro até a Alcântara. Saímos do autocarro e fomos a pé. Estavamos no passeio para atravessar para o passeio do Pão de Açúcar, que era conhecido na altura e chegámos a meio da estrada, eu avancei e um carro vermelho parou e alguém o chamou. Creio que fosse para lhe pedir uma informação. Cheguei ao passeio de lá, olhei e vi um rapaz a sair do carro e a dar a volta para o passeio. Pouco depois, o carro arranca e nunca mais vi o Zé. Passeio uns minutos a olhar, a pensar e a encontrar uma resposta. Não sei o que se passou, se os do carro o conheciam ou não. Foi rapto, sem dúvida, mas porquê?

          Eram cerca de 18h30. Estava tão preplexo, não sabia o que fazer. Seja como for, tinha de voltar atrás e pior, tinha de contar aos pais dele!

          Nervoso, apanhei o autocarro. Subi a ladeira a pé e cheguei a casa do Afonso. Entrei e subi. Agora, era o que Deus quisesse! Quem me abriu a porta foi a D. Fernanda. Fui corredor a fora e vi os olhares de todos. Mal entrei na sala, a pergunta não se fez esperar -"Onde está o Zé? A mãe D. Vitória, voltou a perguntar :-"O meu filho ficou em casa?- O meu pai:-"Porque vieste sozinho, onde ficou o Zé? Todos queriam saber e eu sem saber o que dizer. A mãe e o pai do Zé, depois disseram, se calhar não quis vir e mandou-o embora sozinho, não foi isso, Rogério? Respondi finalmente:- Não!

Acabei de contar o que verdadeiramente aconteceu. Que tinhamos atravessado juntos, e que ele foi chamado por um carro vermelho e depois de chegar ao passeio, olhei, vi um rapaz a sair e a dar a volta ao carro e depois, vi o carro arrancar e nunca mais vi o Zé. Ele foi levado naquele carro! Naquele momento, quase todos se levantaram e sairam á procura do carro e do filho. Não me deixaram ir. Perguntei se os pais iam apresentar queixa á policia e se eu tinha de ir contar, responderam, que seria o mais natural. Andaram toda a noite e nada. muito mais tarde, receberam um telefonema, que ele estava internado no hospital e que iria ser transferido para o Hospital Militar, por ser tropa. Foram vê-lo ao hospital e o que soube é que ele estava em coma. Nessa altura, senti medo, receio, um misto estranho, como se eu tivesse culpa!

          Muito mais tarde, ele acordou do coma. Depois quando ficou mais ou menos bom, contou o que se passou e que o levaram para a serra do Monsanto, o amarraram, bateram-lhe e depois, despiram-no e deixaram-no ao relento. Foi com muito esforço, que se arrastou até á estrada e depois, conseguiu pedir socorro e desmaiou, creio! Devido a isso, os pais dele, convidaram-nos para um jantar. Mas, avisaram-me, que não perguntasse nada, pois ele estava ainda a recuperar do tão traumático acontecimento. Entrámos e fomos para a sala. O Zé e o irmão estavam ainda no quarto. A D. Vitória e a minha madrasta falaram do sucedido, mas queriam evitar falar ao pé de mim, que tinha assistido e ao pé do filho. Já todos á mesa, as conversas foram mais voltadas para o Zé e a recuperaçao, os estudos, etc. Apresentaram queixa, mas como era menor e não me quiseram envolver em interrogatórios, não falaram que tinha sido eu a assistir ao rapto.

          O mais estranho, é que nunca fomos, nem amigos, nem próximos e foi o que voltou a acontecer depois da recuperação dele. Nunca mais falámos a não ser quando nos cumprimentavamos.

          Hoje, 2019, soube entretanto, que já morreram, o Afonso, a D. Fernanda, a D. Vitória e o Zé. O irmão e o pai, ainda vivos, mas com uma vida de miséria e o álcool!