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A Gazeta do Repórter

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Cristiano Miguel, um "Filho" que se tornou ingrato!

13.12.19 | Rogério Rosa

 

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          Estive a trabalhar num infantário, durante 15 anos. Neste infantário, muito aconteceu, quer de bem, quer de mal.
Uns ligeiros contratempos, fizeram com que Cristiano, não fosse como sempre para casa da avó. Esta ficou doente e sem conseguir ir buscar o neto. A mãe, estava presa e o pai, impedido de o ter. Restava a irmã, que vivia portas meias comigo. Era uma 6a. feira. eu tinha aulas na Gil Vicente. Pelas 19h30, fechei tudo enquanto o Cristiano andava atrás de mim. Mandeio-o ir buscar a mochila e lá fomos nós, rua acima em direção á Graça. Ele de mão dada comigo, pois passava a ter a grande responsabilidade de ter uma vida nas minhas mãos.
          O Cristiano, tinha 7 anos, um pouco reguila, mas muito atento, meigo e bem bonito!
Entrei com ele na Gil Vicente. Na entrada, avisei o segurança, que o menino não podia sair da escola sem mim. Ele tinha um jogo chamado diablo, onde ele tinha de se entreter sozinho. Nunca na minha cabeça, passou a ideia de levá-lo para casa, fechá-lo á chave e ir para as aulas. Seria uma grande responsabilidade da minha parte. Tinha que tomar conta dele, como se de meu filho se tratasse.
Ele ficou no corredor das aulas e antes, disse-lhe que fosse para o quintal e que não saisse de lá, a não ser para vir ter ali, áquele corredor, pois a auxiliar, já sabia. Fui para as aulas mais ou menos descansado. No intervalo, estava ele no corredor sentado, cansado e com sono. Eu, fui chamá-lo, leveio-o ao bar para comer qualquer coisa e depois, foi comigo para a sala de aulas. Leveio-o para o fundo da sala e dizendo-lhe para por a cabeça nos braços e dormir, que depois o ia acordar para irmos embora.
          Chegamos a casa, fiz mais qualquer coisa para se comer, depois, mandeio-o á casa de banho fazer xixi e deitar-se. Tinha a televisão no quarto. Disse-lhe para tirar as meias e as cuecas, para as lavar, já que não tinha mais roupa nenhuma dele e tinha de ser lavada sempre!
          O fim de semana, de manha dei-lhe o pequeno almoço. Fiz a cama, tomei o pequeno almoço e fomos dar um passeio. Fomos até ao bairro alto, tirar fotos. Vi nele, o Cristiano diferente do infantário. Fomos para casa, estava lá a irmã dele na sua casa na porta da frente. Disse-lhe que fosse lá dar um beijo á irmã e aos bebés dela, enquanto fazia o almoço. De tarde, fomos até Belém. Fomos nos elétrico. Ele todo contente! ia no banco á minha frente, daqueles individuais. Leveio-o ao jardim, á beira rio e lá andámos até casa.
          Em casa, jantámos, ele brincava até á hora de ir para a cama. Eu, lavava a loiça e mais tarde, fomos dormir. Já de madrugada, ouvi na casa da irmá dele, os bebés a chorar. Um de 8 meses e outro de 18 meses. Não estava ninguém para os calar. Os pais, tinham saído e os deixado a dormirem. Ao que soube, tinham ido para a discoteca e chegaram pelas 5h da manha. Enquanto eu olhava o Cristiano, que dormia profundamente ao meu lado, pensava que também ele, poderia estar ali sozinho na casa ao lado, sem mais ninguém a não ser os sobrilhos.
          De manha, acordeio-o e fomos para o chuveiro. Começava uma aventura para ele e ao mesmo tempo para mim. O chuveiro ficava no corredor, onde era uma partilha entre os vizinhos daquele patamar. De repente, não me lembrava que não havia água quente e que ele, um miudo de 7 aos, nao podia deixar de se lavar. Não podia andar porco e ainda por cima, saberem que estava sob minha responsabilidade. Não havia outra forma. Tomámos banho juntos. Laveio-o, ensaboeio-o, tirei-lhe o sabão com a água fria e eu tb. Ele, tremia como varas verdes. Enroleio-o numa toalha e disse-lhe, que não havia água quente, mas não podia o deixar ir sem se lavar. Quase me emocionei e só faltou lhe pedir desculpa por isso!
          Fomos entáo rua abeixo em direção ao infantário para mais um dia de brincadeiras para ele e aulas e para mim, de trabalho. Ao fim da tarde, tudo se ia repetir. Irmos os 2 de volta para a Gil Vicente, onde ele ia para a minha aula, fazer alguns trabalhos de casa, acabando sempre por adormecer. As professoras e auxiliares, também estavam a simpatizar com ele.
          De novo na 6a. feira. Fechámos o infantário e lá fomos rua acima para a minha escola. Segurança avisado, auxiliares atentas e por vezes a tomarem conta dele, enquanto eu assistia ás aulas. Depois das aulas, fomos para casa. Quase 23h. Comemos qualquer coisa. Em casa, ainda se ouvia a irmã e o cunhado do Cristiano a falarem. Assim como eles nos ouviam. Fernando, era o companheiro da irmã, um rapaz de 19 anos e já com 2 filhos bebés. Fomos ver televisão e não passou muito tempo para o Cristiano adormecer.
          Nessa madrugada, eram mais ou menos 6h da manha, os bebés estavam sozinhos, mas a Teresa, a vizinha de baixo, tinha as chaves e foi lá buscá-los, como já era costume. Eles chegaram mais ou menos pelas 6h30.

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          Este fim de semana, fomos ao Bairro Alto. Subimos á Misericórdia e disse ao miudo que se colocasse junto do cauteleiro de bronze, para lhe tirar uma foto.
No Domingo, fomos para o Castelo de S. Jorge. Sentei-me e vi a alegria dele. Corria, andava com o diablo atras dele. Depois fomos para o miradouro. Tirei-lhe algumas fotos para se lembrar mais tarde, quer ele, que eu!
          De novo entrámos na 2a.feira e os banhos também. A semana toda, feita entre o infantário e a Gil Vicente. Nas manhas de semana, os banhos que já não o faziam tretemer tanto. Mas, lá no Infantário, as pessoas ja diziam, que ele nunca tinha andado tão limpo, desde que estava sob minha responsabilidade. Era bom de ouvir.
          A 6a.feira de volta e o ritmo ia manter-se, entre nós os 2. Nunca tinha tido a sensação de “pai”, onde um “filho”, tão obediente tinha arranjado.
          Mais um fim de semana. Mais uma madrugada de acontecimentos. Desta feita, o pai dos bebés estava em casa. A mãe, irmã do Cristiano, não estava e foi impedida de entrar. Desavenças entre eles. Pelas 5h, eu estava acordado e ouvi a mãe nas escadas a chamar o companheiro, que se negava a abrir a porta e a policia, insistia para que ele abrisse. Estiveram nisto do abre não abre, cerca de mais de meia hora. Um dos bebés chorava mais que o irmão. Olhava o Cristianinho, que não se apercebia de nada e dormia profundamente. Passava-lhe a mão pela cabeça dele e pensava, se não tivesse sido bem melhor ali a dormir, se eu tivesse de facto, entregue á irmã. Aliás, não entreguei, não porque não quisesse, mas pelas faltas de condições, que a irmã tinha para acolher o irmão naqueles 15 dias.
          O Cristiano Miguel, fará sempre parte da minha vida!
Mais tarde, mudei de casa mais para S. Vicente e o Cristiano foi passar o meu aniversário que era num fim de semana. Passeou-se de novo e as confições já eram outras. Tinha á espera dele, uma coisa fantástica, água quentinha!.
          A avó melhorou um pouco, mas agora havia um outro problema. O Cristiano tinha outro meio irmão, o Tiago, que era a outra avó que o ia buscar ou o pai. O pai, era mais destraído e alcoólico e a avó, uma senhora adoentada. Tinha pouca saúde para andar a ir sempre buscar o neto. Uma vez, Estava eu com o neto no infantario ás 22h. Nunca mais o iam buscar. Então ligou-se á coordenadora para saber o que se podia fazer e ela lá aconselhou levá-lo a casa da irmã, minha vizinha. Eu leveio-o ao colo e mais uma auxiliar fomos á Graça para saber se a irmã lá estava. Não estava e fui com ele ao colo, a casa do pai do Cristiana podendo a irmã lá estar e nada. Voltámos depois para o infantário. A auxiliar lembrou-se que uma colega nossa morava de fronte da casa da avó dele e ligou-lhe. Depois de dar o número da porta e o andar. Voltei a sair com o miudo ao colo e com a auxiliar e lá fomos pelas 23h15, conseguimos entregar a criança á avó. Ela, ficou muito admirada pelo neto ainda estar no infantário, já que o filho dela, pai do miudo, tinha saído de casa para ir buscá-lo ás 19h. Foi para outros lados em vez de ir buscar o filho. O mais estranho, é que também ainda não estava em casa.
          Ainda me lembro de o Cristiano me ter dito que gostava que eu fosse o seu pai. Respondi que ele tinha pai, fosse ele o que fosse. Disse que não gostava dele, que era drogado. Tentei o mais que pude defender o pai, pois, pai é pai, ser bom ou ser mau. Tinha de o ajudar um dia ser um bom pai e foi esta conversa que fomos tendo pela rua abaixo, até ao infantário.
          Foi a última semana que ia ter mais uma vez, um companheiro de noite e fim de semana. Gil Vicente ida ao bar, antes das aulas e depois, ir brincar vigiado pelos auxiliares da escola. De volta a casa sempre de mão dada, não fosse o diabo tecêlas!
          Fim de semana de elétrico, elavador e até metro, andámos.
          Na 2a. feira, a meio da manha, fui chamado á Psicóloga Joana. Conversámos sobre a minha aventura de”pai” durante os 15 dias e até noutra época especial aniversário, que o levei de novo. A conversa foi bastante emotiva e uma das hipóteses seria ficar com ele. Houve uma pergunta, se eu estaria disponível a adoptá-lo. Um momento em que me emocionei, pois foram vividos com muita intensidade e da parte dele, até já me considerava um”pai”. Contei-lhe a conversa que tive com ele sobre o pai e de facto, disse-lhe, que eu não estava ali para substituir o pai, mas um amigo, uma espécie de irmão mais velho.
          A Joana, disse que o processo ia ter inicio, mas que a adopção a ser aceite, eu seria o preferido, mas mais tarde, acompanhando o que se iria passar, foi então que soube, que o Cristiano e o Tiago, meio irmão, iriam então os 2 para a Casa Pia de Lisboa. Fiquei contente na mesma. Uma instituição de acolhimento, onde estarão juntos.
          Anos depois, foram de visita ao infantário. O Cristiano, estava tão bonito, ja com uns 18 anos com o Tiago. Falei com ele , onde se lembrava de tudo o que fiz por ele, mas não me ligou mais nem tirou nenhuma foto comigo com aquela idade e depois pedi, que desse á mãe para me trazer, disse que sim, pois nao tinha nenhuma ali. Passados mais de de 8 anos, nunca mais o vi. Nem encontro a págima dele no facebook.
          Não há pior que a ingratidão. Onde se faz o bem, onde damos toda a atenção, amor e carinho, passeios. De lembrar que, nunca o deixei fechado em casa. Que o levei sempre comigo para a escola á noite. Que o levei a passear, a dar-lhe banho, a lavar-lhe a roupa interior e até camisola e calças. Hoje, infelizmente, parece não ter contado nada!
          A mãe, saiu da cadeia, foi informada sobre a estada do filho em minha casa e nunca me agradeceu! Dei uma foto em poster grande do Cristiano, tirada em minha casa á avó, ficando com uma igual. Foi a única que agradeceu.
         Sempre que olho as fotos do Cristiano, sinto saudades daquele tempo com ele. O que mais me entristece, é a falta de gratidão!

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