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A Gazeta do Repórter

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Rogério Rosa, recorda a sua passagem pela Marcha de S. Vicente de Fora-1998/2000

13.06.20 | Rogério Rosa

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          As Marchas Populares de Lisboa, desfilam desde mais ou menos a partir 1934. Tudo começou em bairros em festas e efeites dos bairros populares, mas a sua expressão maior veio pelas mãos do realizador Leitão de Barros, no seu filme " A Canção de Lisboa", onde surgiram as marchas populares. Celebrizaram-se com Vasco Santana e Beatriz Costa.

          Muitos anos decorridos das tradições, que unem vários bairros da capital, cada qual, prepara para que o seu bairro seja o melhor. Quando chega o tempo das marchas, abrem as inscrições e depois é só esperar que se inicie.

          Durante muito tempo assisti, quer pela televisão, quer na Av. da Liberdade aos desfile. Era ver cores bem garridas de todos os bairros. Rivais uns dos outros certamente, mas competitivos. Eu nunca me tinha passado pela cabeça, alguma vez ir numa daquelas marchas, até porque como deficiente visual, não era de todo aceite. Fui vendo e acompanhante mas sem pensar querer ir algum dia. Um dia, fui assistir aos ensaios da Marcha do Bairro Alto. Um convite de uma ex- colega de colégio, ambliope. Olhei e comecei a pensar,j se ela que vê mal como eu e vai, porque será que eu não posso? O tempo foi passando e fui-me desligando disso.

          Anos depois, mais concretamente em 1997, estava eu no terraço da Voz do Operário, no intervalo de uma peça de teatro, que eu estava a fazer, fui espreitar pela janela o ensaio da Marcha de S. Vicente. Os ensaiadores, eram o José Luís de Almeida e sua esposa Luísa Rafael. Fiquei a admirar todo aquele espectáculo. Comentei inclusive com alguém do elenco, que não me importaria de ir um dia na marcha, mas logo fui travado com a resposta de que eu não iria conseguir por ver mal. Passado um ano, estava nos ensaios também. Pois, aconteceu ir viver para S. Vicente e fui á Academia Leais Amigos. O objetivo era dar-me a conhecer, antes de ir na marcha. Inscrevi-me e no dia de apresentação, lá estava, mas sempre a medo. Começaram por falar da Academia, depois da organização da Marcha e por fim, de como tudo se ia desenrolar. Terminando com a destribuição das letras das canções, que iriam naquele ano ser cantadas por todas as Marchas. Confesso que estava empolgado. Depois, era só ir todas as noites a partir das 21h30, até cerca das 23h45.

          O tempo foi passando e chegou o dia de fazermos as provas dos fatos. Radiante e covicto de que iria conseguir, sem que dessem por eu ver mal. Mal sabia eu que alguns já tinham descoberto. Num dos ensaios, enganei-me algumas vezes, tudo por culpa do elemento da minha frente, no intervalo fui chamado a atenção. Pensei que era o momento de dizer a verdade. Esperei tudo menos a compreensão dos organizadores. Todos me ajudaram. Os ensaios são com o nosso par. Há 2 filas paralelas que estão distantes, entre 50 a 100 metros e é por eles que nos temos de guiar, ora se eu nem quase a 1 metro vejo! Decorei, ensaiei e nunca falhei ao contrário de muitos dos meus colegas. Fomos primeiro para o Pavihão Carlos Lopes. Muita luz, muito público e os nossos padrinhos, Vasco Rafael e Anita Guerreiro. O Vasco estava bastante doente já e só a Anita Guerreiro foi e acabou por o representar também. Aliás, ele veio a falecer quando fomos para a Avenida. Curiosamente, tinha falecido o ano anterior, a Luísa Rafael, num brutal acidente de viação. Foi uma grande emoção ao ouvir o público a gritar pela nossa marcha. Depois de nos termo exibido tinhamos de ver as outras marchas que iam á nossa frente. Fomos depois mais tarde para a fase final. A Av. da Liberdade. Desdecemos o Marquê de Pombal avenida a baixo. Fizémos 7 tetos de luz, que equivale a 7 vezes as marcações até chegar a meio da Avenida ao seja, o palanque, onde se encontrava o juri. A transmissão em direto para a televisão, deu mais garra porque, eram milhares de pessoas a assistir ali e em todo o país! Depois, dever cumprido quanto ao concurso. Fomos avenida abaixo até aos Restauradores, onde fomos de autocarro de volta ao bairro. Era preciso agradever a todos os residentes que nos tinham apoiado no pavilhão e na Avenida e terminámos com desfil pelo bairro todo de S, Vicente. No entanto, fomos todos convidados a desfilar na Expo, que tinha sido inaugurada e aberta ao público. Foi um privilégio enorme para todas as Marchas. Um acontecimento que aconteceu na Expo, foi notório que apesar da rivalidade entre bairros, tiveram um gesto bonito. Todas as Marchas tinham de estar no recinto pelas 20h30, a nossa Marcha teve um contratempo, bem como a Marcha da Bica. Ficaram de fora. Pelas 21h, todas as Marchas que se encontravam dentro do recinto, se recusaram a desfilar, enquanto as que estavam foram não entrassem. Perante este cenário e porque a rtp estava quanse a entrar em direto para o Telejornal, não tiveram outro remédio, que nos fazerem entrar e só assim, todas desfilaram.

          Nos 2 anos seguintes, fui de Aguadeiro, já que a escola me impossibilitava de ir de novo como Marchante. Tudo o que os aguadeiros fazem será destrinuir água na Avenida, colocar e apanhar depois os adereços do chão, nas chamadas marcações. Carregar e descarregar os arcos.

          O convivio diário durante 3 meses, faz com que se possa criar cumplicidades, amizades e partilhas. A Academia Leais Amigos, bem como o Arnaldo (já falecido) ou o António Fonseca, pessoas inesquecíveis. Apoiaram-me muito dentro e fora da Marcha. Fui sempre muito bem recebido por todos os jovens e menos jovens ao longo de 3 anos.

 

Marchas Populares, a Recordação

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